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Comentário a “Os anti-intelectuais não são burros, mas…”, de Mário Moura (The Ressabiator)

Também concordo com a existência dos anti-intelectuais… mas acho que rotular bolonha como sendo uma má estratégia educacional por causa da sua má aplicação por parte de alguns docentes não faz sentido nenhum. Tenho uma visão diferente de bolonha e aquilo que eu acho que se poderia discutir era se a nossa cultura, se a cultura dos nossos estudantes, está preparada para bolonha.

Um bom exemplo disto é a remodelação de Bolonha, que com a desculpa de agilizar a investigação tornando-a mais prática, acaba por substituir a investigação pura pela investigação aplicada – que é como quem diz: substitui a teoria pela prática, continuando a chamar-lhe (quase) teoria.

Não acho que bolonha seja de forma nenhuma anti-intelectual. A teoria e a prática coexistem pacificamente. No entanto, a forma como o conhecimento é “transmitido” (em bolonha o docente, mais do que transmitir conhecimento, orienta a construção do conhecimento) é diferente. Sim, as aulas deverão ser mais práticas… mas a teoria acompanha este percurso prático. Todos os conceitos teóricos deverão ser continuamente transmitidos ao aluno acompanhando o seu percurso prático. Esta estratégia não é de todo uma substituição da teoria pela prática.

Este esquema assume que a investigação pura já deu o que tinha a dar – já está resolvida –, e que agora basta aplicá-la. Desencoraja o investimento em investigações de longo curso, cujos resultados não sejam imediatamente visíveis, apostando em trabalhos mais curtos e menos complexos.

Não assume que a investigação pura já deu o que tinha a dar, e não me parece que aposte em trabalhos menos complexos. A forma de investigar altera-se. Uma tese deixa de ter uma estrutura “clássica” (um capítulo teórico e um capítulo prático) e passa a ser um trabalho de investigação prático em que a teoria acompanha (complementando) a prática.

Posso fazer uma tese prática sobre webdesign e essa tese consiste essencialmente no desenvolvimento de um website. Posso fazer uma tese teórica sobre webdesign e essa tese consiste na abordagem teórica dos conceitos inerentes ao webdesign. Ou posso fazer uma tese em que desenvolvo um website e, ao longo desse percurso, vou introduzindo todos os conceitos teóricos complementando e enriquecendo o desenvolvimento prático.

Mario, não quero ser do contra… aliás, concordo com “tudo” o que escreveste e muito obrigado por mais um excelente texto (como sempre). O único ponto que não me parece muito correcto é esta questão em relação a bolonha. Acho que a abordagem é extremamente interessante e todos ganham com esta estratégia (excepto os mais preguiçosos)… alunos, docentes, investigadores, críticos, etc…

Os únicos que perdem com esta abordagem são realmente os anti-intelectuais que acham que a teoria não serve para nada e, no outro extremo, os teóricos que acham que a prática também não tem valor.

Claro que muitos poderão dizer em relação à minha posição relativamente a bolonha: “Ahh sim sim… isso é muito bonito na teoria!! Mas na prática……”

Os anti-intelectuais não são burros, mas… de Mário Moura, em The Ressabiator.

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