blog icon

IxD@web – 01.01a Sobre Interacção: O aspecto comunicativo

E: Está lá?
R: Estou sim, quem fala?
E: Daqui é o João!
R: João!?! Está tudo bem contigo?!
E: Está sim! Estava aqui a ver umas coisas e lembrei-me de te ligar. O que é que tens feito?
R: O mesmo de sempre [...]

Temos aqui um modelo básico de interacção, uma conversa ao telefone. Ao analisar esta conversa percebe-se as reacções a estímulos por parte do Emissor e do Receptor. No entanto, nalguns casos, um deles reage à pergunta efectuada pelo outro e acrescenta uma outra, “Estou sim, quem fala?”. Os agentes não se limitam somente a reagir à pergunta efectuada pelo outro e “alimentam” o discurso. O fluxo de linguagem mantém-se consoante a introdução de novos estímulos.

Reagimos a comportamentos. E estas reacções tomam inúmeras formas seja no sentido de continuar uma agradável conversa, de satisfazer alguma necessidade, ou até mesmo de bloquear assuntos que não nos interessam por algum motivo.

A interface aqui é a própria língua. È o facto de esta existir e ser percebida e manipulada pelos agentes, que permite a interacção entre ambos. Através de uma linguagem, de um código, podemos comunicar, interagir.

Ao longo da interacção vários factores estão envolvidos. A capacidade que cada um deles tem em usar a língua devidamente para comunicar conceitos, e a capacidade de reagir emocionalmente a estímulos e comunicar com eles, são, entre outros, factores importantíssimos no acto comunicativo.

Colocando de parte a conversa telefónica e pensando numa conversa entre duas pessoas que estão frente-a-frente fisicamente percebe-se que a comunicação é feita através de outros códigos, como a linguagem gestual, pelos odores, pelas roupas, pela troca de olhares, entre outros. Tudo isto num tempo e num espaço específicos que irão dar significado a cada um dos signos utilizados pelos agentes com o intuito de comunicar algo específico.

Nesta conversa entre os dois agentes, podemos diferenciar duas características inerentes a ambos. O comportamento e o aspecto de cada um. Ambos comunicam e ambos interferem no processo de interacção. È através do comportamento que a interacção se desenrola, no entanto, o aspecto irá condicionar este comportamento. Um Punk no Parlamento ou um homem de fato e gravata, ambos com o mesmo discurso, irão certamente produzir reacções diferentes nos receptores.

A interacção deverá ser pensada de forma estratégica quando se pretende interagir com algo e, para que esta interacção seja útil, usável e agradável, interessa manter a coerência entre aspecto e comportamento tendo em conta o Receptor e o contexto em que a interacção se desenrola.

Tudo isto pode ser transportado para um artefacto interactivo. Inúmeros produtos, desde leitores de MP3 a canetas digitais , serviços administrativos on-line, softwares de edição de imagem, kioskes multimédia, carros, entre outros, mostram como a coerência entre aspecto e comportamento são importantes para o sucesso da sua utilização. O chamado look and feel das coisas. No fundo, um produto, serviço ou ambiente, acaba por ser um actor que comunica com o Homem num tempo e num espaço específicos. Através do seu aspecto e do seu comportamento este actor apresenta-se e prontifica-se a um processo de interacção com potenciais interessados, seja nos seus serviços, nas suas funcionalidades ou somente no seu aspecto e conceitos que transporta.

Interactividade é um processo e inúmeros factores condicionam este processo. Seja em termos de sucesso ou insucesso, comunicação redundante ou entrópica. Criar, ou desenhar, interactividade ou algo interactivo, implica perceber o acto comunicativo, o utilizador e a sua cultura, os sistemas significantes e o contexto em que se desenrola, ou desenrolará, a interacção.

Se interagir tem por base um processo de comunicação, entre indivíduos, artefactos, ou indivíduos e artefactos, então desenhar interacção é criar o comportamento e o aspecto dos agentes envolvidos nesse mesmo processo de interacção de forma a que a comunicação entre ambos seja feita com sucesso. Pensar a interacção entre estes agentes impõe pensar as características e estratégias de comunicação. Que mensagem, para quem, como, quando, onde, para quê e porquê.

Existem diversas formas de abordar a comunicação. Segundo José Esteves Rei (2002), “A comunicação é a actividade central do Homem contemporãneo”, “comunicar não é objectivo”, “comunicar é negociar”, “comunicar é escolher”, “comunicar é mudar o comportamento das pessoas pelo diálogo”, “por comunicar entendem os próprios comunicadores coisas diferentes, que servem para resolver questões e coisas diferentes”, “a comunicação cria e/ou modifica a realidade”, “uma pragmática da comunicação”.

Importa aqui salientar determinados aspectos que certamente ajudam a perceber o conceito de interactividade e, consequentemente, o processo de interacção. A interactividade é uma actividade central no Homem no sentido em que este interage, e sempre interagiu, com tudo o que o rodeia. Seja a um nível físico, conceptual ou ambos. Interagir envolve um processo de negociação onde são efectuadas escolhas. Ao reagir, o indivíduo selecciona acções e reacções quando interage com algo com um intuito específico. O processo de interacção altera a percepção e o comportamento do Homem libertando-o e condicionando-o no seu quotidiano. A interacção cria e/ou modifica a realidade no sentido em que ao interagirmos acrescentamos sempre algo e, ao mesmo tempo, adquirimos algo, acrescenta-se e constrói-se saber.

Assim sendo, a interface serve o acto comunicativo, serve o comportamento, sendo que ela própria, com a sua forma e a sua função, comporta-se de determinada maneira condicionando o comportamento do utilizador.

Se numa conversa entre duas pessoas a interface é a língua, a qual permite a interacção, então a interface gráfica é a língua que permite ao Homem interagir com o artefacto pretendido. Sendo a interface gráfica constituída por palavras, sons e imagens, esta é um todo significante composta por um conjunto de signos que interagem entre si, com o utilizador e com o que está para lá desta, dados/informação.

Próximo artigo: IxD@web - 01.01b Sobre Interacção: As dimensões-chave daquilo que é interactivo

Comments are closed.